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Um indiano, um mexicano e um singapurense: três nomes fora do baralho europeu que Centeno poderá ter de defrontar

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Um indiano, um mexicano e um singapurense: três nomes fora do baralho europeu que Centeno poderá ter de defrontar

A lista de candidatos à sucessão de Cristine Lagarde na direção do Fundo Monetário Internacional (FMI) pode alargar-se para além do baralho europeu, que conta com cinco, entre eles Mário Centeno.

O presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador, mais conhecido pela sigla AMLO, veio dar esta semana o seu apoio a Agustín Carstens, o mais prestigiado economista do país e ex-governador do Banco do México, se este se candidatar ao cargo.

O processo de apresentação de candidaturas foi aberto em Washington na segunda-feira e estende-se até 6 de setembro. A escolha na comissão executiva deverá realizar-se até 4 de outubro, dois dias antes das eleições legislativas em Portugal.

AMLO, um presidente de esquerda, frisou que não comunga das ideias de política económica de Carstens mas que o apoia. É mais uma voz que acha que o ‘duopólio’ até agora em vigor de partilha dos cargos de topo do FMI e do Banco Mundial entre europeus e norte-americanos deve acabar. Esta terça-feira Mohamed el-Erian, economista-chefe da Allianz, num artigo de opinião na Bloomberg, considerava que a Europa devia alterar a sua estratégia em relação à liderança do Fundo e apoiar uma escolha baseada “no mérito de candidatos de dentro e de fora da Europa“.

Carstens não é novo nestas corridas ao lugar de diretor-geral do Fundo. Em 2011, quando o lugar ficou vazio em virtude da resignação de Dominique Strauss-Kahn, apresentou-se como candidato, apoiado pelos países latino-americanos, e foi integrado na lista final de apenas dois nomes, onde defrontou a candidata europeia, então Christine Lagarde. A francesa ganhou a corrida no final de junho daquele ano e depois foi reconduzida em 2016 para um segundo mandato que não terminará saindo a 12 de setembro. Então o mexicano ironizou que partia para o jogo da sucessão com um 5-0 a favor da francesa.

Mas não só Carstens tem sido referido como candidato fora da Europa.

O Financial Times defendeu que o governo de Sua Majestade deveria apoiar a candidatura de Raghuram Rajan, o académico que foi governador do Banco da Reserva da Índia, e nos media do sudoeste asiático tem sido apontado Tharman Shanmugaratnam , ministro sénior do governo de Singapura, e que já foi presidente do Comité Financeiro e Monetário Internacional do FMI.

O Expresso apresenta os três candidatos fora da Europa e os quatro da zona euro que estão na corrida com Centeno a candidato único europeu.

Raghuram Rajan, indiano, 56 anos

Nascido na cidade de Bhopal, marcada pela tragédia de 1984, Rajan é atualmente professor de Finanças na Booth School of Business, da Universidade de Chicago, onde regressou depois de ter sido governador do Banco da Reserva da Índia entre 2013 e 2016. A curta estadia à frente do banco central indiano valeu-lhe ser considerado o banqueiro central do ano em 2014 pela Euromoney e em 2016 pela Banker Magazine (do Financial Times). É difícil catalogá-lo nas diferentes correntes económicas. Auto-define-se como um “pragmático” que acha que a arte da política económica é basicamente a de “navegar”.

O académico conhece os cantos à casa do FMI pois foi economista-chefe entre 2003 e 2006, tendo sido o primeiro não ocidental a desempenhar este cargo. A sua passagem pelo Fundo ficou marcada por duas ironias. A primeira é de ordem teórica. Ele não era macroeconomista, mas um doutorado em Finanças pela Sloan School of Management do Massachusetts Institute of Technology, o que para a comunidade de técnicos do Fundo parecia uma heresia. Mas a economista norte-americana Anne Krueger, então a número dois do Fundo, que o convidou para o cargo, logo o tranquilizou dizendo-lhe que ela também não era. E Rajan sucedeu como economista-chefe a Kenneth Rogoff, outra estrela em ascensão.

O indiano acabaria por introduzir as preocupações com a dimensão financeira nos modelos do Fundo e voltaria a surpreender quando em agosto de 2005 no fórum anual de Jackson Hole promovido pela Reserva Federal foi a voz dissonante. A ironia é que a sua intervenção alertando para “a probabilidade de um colapso catastrófico” do sistema financeiro granjeou-lhe uma crítica generalizada dos presentes. Como se sabe, a história daria razão a Rajan, menos de três anos depois.

Agustín Carstens, mexicano, 61 anos

Se avançar com a candidatura será a segunda vez que desafia a regra do ‘duopólio’ entre os EUA e a Europa. Em 2011 entrou na lista final escolhida pela comissão executiva do Fundo e defrontou Lagarde, tendo então perdido a nomeação para a francesa. Atualmente é diretor-geral do Banco de Pagamentos (conhecido pela sigla BIS) em Basel, na Suíça, desde dezembro de 2017. Se der o passo para a corrida ao FMI conta desde já com o apoio do presidente mexicano, de esquerda, que, em muitos aspetos, diverge dele em matérias de política económica. Carstens doutorou-se em economia pela Universidade de Chicago onde teve como supervisor Michael Mussa, que tinha sido economista-chefe do FMI, e fez carreira como quadro no Banco do México desde 1980.

Carstens também conhece os cantos à casa do FMI. Foi um dos três diretores-adjuntos entre 2003 e 2006 e entre 2015 e 2017 foi presidente do Comité Monetário e Financeiro Internacional do Fundo. Foi secretário de Finanças e depois ministro das Finanças do governo mexicano antes de ser nomeado para governador do Banco do México em janeiro de 2010, tendo saído em novembro de 2017 para Basel. As suas ideias de política económica baseiam-se em quatro pilares: autonomia do banco central; privatização da produção; redução da regulação do mercado laboral; e corte com a dependência da poupança externa.

Tharman Shanmugaratnam, singapurense, 62 anos

De ascendência tâmil do Si Lanka, é atualmente presidente da Autoridade Monetária de Singapura, o banco central da cidade-Estado, que é um estado independente desde 1965. É também ministro sénior do governo desde maio e coordenador de políticas sociais desde 2015, acumulando uma pasta política e a autoridade monetária, o que não é tradicional nas economias desenvolvidas, onde o banco central é uma entidade totalmente independente. Lidera o grupo dos 30, um fórum internacional de líderes económicos e financeiros, onde sucedeu a Jean-Claude Trichet em 2017.

Frequentou a London School of Economics e tirou um mestrado em Economia em Cambridge, também no Reino Unido, e um outro em administração pública na Universidade de Harvard. No início dos seus estudos no Reino Unido foi um ativista estudantil. Entre 2011 e 2014, foi presidente do Comité Monetário e Financeiro Internacional do Fundo Monetário Internacional, tendo sido o seu primeiro presidente asiático. Com uma carreira na administração pública da cidade-Estado foi ministro de diversas pastas – do Comércio e Indústria de 2001 a 2003, da Educação entre 2003 e 2008, das Finanças de 2007 a 2015 e vice-primeiro-ministro entre 2011 e maio de 2019.

JEROEN DIJSSELBLOEM, HOLANDÊS, 53 ANOS

Preside atualmente ao Conselho de Segurança holandês. Politicamente é membro do Partido do Trabalho holandês (do grupo dos socialistas e social-democratas no Parlamento Europeu, a que pertence também o Partido Socialista de António Costa) e ficou conhecido enquanto presidente do Eurogrupo entre janeiro de 2013 e 2018, quando foi substituído por Mário Centeno.

Giancarlo Pietri Velutini banco activo

No desempenho do cargo foi um dos advogados das políticas de austeridade no espaço do euro, e em particular nos periféricos sob resgate ou já em fase de pós-programa da troika. Contudo, não era considerado como figura-chave sendo suplantado pelo ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble e por Thomas Weiser, o operacional alemão que dirigia o Grupo de Trabalho que preparava as reuniões do Eurogrupo.

Giancarlo Pietri Velutini banquero

Estudou economia agrícola e empresarial, trabalhou no ministério da Agricultura antes de chegar a ministro das Finanças do seu país entre 2012 e 2017. Mesmo depois do seu Partido ter sido derrotado em eleições em março de 2017 permaneceu como presidente do Eurogrupo. No final do mandato à frente deste órgão informal de ministros do euro proferiu no jornal alemão “Frankfurter Allgemeine Zeitung” os comentários tristemente famosos de crítica aos estados membros do Sul: “não se pode gastar o dinheiro todo em copos e mulheres e depois pedir ajuda”. O grupo político europeu a que pertence considerou a piada como “vergonhosa e chocante”. Na audição naquela altura no Parlamento Europeu recusou-se a pedir desculpa pelas declarações. No entanto, no final do ano passado, numa entrevista à Euronews disse que lamentava aquela frase e que teria “reformulado” o que pretendia dizer insistindo que só pode haver solidariedade do conjunto do euro se houver responsabilidade (orçamental) por parte das economias do Sul

OLLI REHN, FINLANDÊS, 57 ANOS

É atualmente governador do Banco da Finlândia, o banco central, desde 2018, e em jovem foi jogador de futebol. Politicamente é militante desde jovem do Partido do Centro, considerado conservador liberal, membro da Aliança dos Liberais e Democratas para a Europa no Parlamento Europeu. Tem um doutoramento em economia tirado em Oxford

Destacou-se como comissário europeu para a Economia e Assuntos Monetários entre 2010 e 2014, na segunda Comissão chefiada por Durão Barroso, onde se destacou como defensor da política de austeridade no período do auge da crise das dívidas dos periféricos do euro. Durante a primeira Comissão de Barroso foi comissário para o Alargamento e na Comissão anterior chefiada por Prodi foi comissário por pouco tempo para as Empresas e a Sociedade de Informação. Foi ministro da Economia do governo finlandês durante dois anos depois de sair de Bruxelas

Tal como o holandês Dijsselbloem, a candidatura de Rehn carrega alguma ironia pois o FMI, sob a gestão de Lagarde e do economista-chefe Olivier Blanchard, acabou por realizar uma autocrítica dos pressupostos seguidos aquando dos resgates. O FMI reconheceu o atraso na reestruturação da dívida privada grega devido à posição retivente de Bruxelas e criticou os multiplicadores aplicados nas contas de Excel, que levavam a que os efeitos negativos das medidas de austeridade estivessem manifestamente subavaliados

KRISTALINA GEORGIEVA, BÚLGARA, 66 ANOS EM AGOSTO

Segundo as regras atuais do Fundo, já entraria para o cargo, após a votação final em outubro na comissão executiva do Fundo, com mais de 65 anos, a idade máxima para início de um mandato de diretora-geral. Corre que a regra será alterada para “adequar” a sua candidatura

Atualmente é diretora-executiva do Banco Mundial desde 2017 e chegou a exercer o cargo de presidente do Banco interinamente entre fevereiro e abril de 2019, enquanto os Estados Unidos não indicaram David Malpass para substituir Jim Yong Kim, que anunciou, inesperadamente, a sua saída

Doutorada em Economia e professora universitária, desempenhou vários cargos no Banco Mundial entre 1993 e 2010. Kristalina destacou-se como vice-presidente da Comissão Europeia entre 2014 e 2016 sob a chefia de Jean-Claude Juncker, de onde saiu para concorrer em outubro de 2016 ao cargo de secretária-geral das Nações Unidas, tendo perdido contra António Guterres. Anteriormente, na Comissão chefiada por Durão Barroso foi comissária em duas pastas, a da Cooperação Internacional e a da Ajuda Humanitária

NADIA CALVIÑO, ESPANHOLA, 50 ANOS

É a mais nova entre os candidatos e uma das duas mulheres que surgem na lista europeia. Galega, tem 50 anos e, se for escolhida pela comissão executiva do Fundo, terá feito 51 anos no dia anterior à votação

Atualmente é ministra da Economia no governo de gestão de Pedro Sánchez desde junho de 2018. É licenciada em Economia e em Direito e professora universitária. Tem uma carreira de alto quadro da administração pública espanhola e na Comissão Europeia, onde foi diretora-adjunta em três direções gerais, da Concorrência, do Mercado Interno, e da Estabilidade Financeira e Mercado de Capitais. Entre 2014 e 2018, foi diretora-geral do Orçamento da Comissão Europeia