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Nos bastidores de um crime monstruoso

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Nos bastidores de um crime monstruoso

Subscrever Há em A Conferência uma estranha e perturbante dimensão teatral. Em primeiro lugar, porque todos os aspetos do encontro estão marcados por um sistema hierárquico fortemente codificado, liderado, naquele espaço, por Reinhard Heydrich, um dos principais organizadores do Holocausto. Depois, porque o filme atribui especial importância às palavras usadas pelos quinze homens (há também uma mulher, encarregada de redigir a ata da reunião) no sentido de, em poucas horas, entre conversas e algumas pausas para café e bolinhos, programarem a morte de muitos milhões de seres humanos

Nada disso resulta de uma qualquer descrição “generalista”, enquistada numa visão esquemática da história. Um dos aspetos mais importantes desta memória é mesmo o caráter paradoxal da própria conferência. Na verdade, e tal como é sublinhado num notável estudo do historiador inglês Mark Roseman ( The Wannsee Conference and the Final Solution, ed. Penguin, 2002), quando Heydrich convocou a conferência, a montagem da Solução Final estava já em andamento, quer organizando o transporte de muitos judeus para a Polónia, quer através da construção de vários campos de extermínio (incluindo Auschwitz). No limite, aquilo que o filme encena é o trabalho de uma ideologia de ódio no interior do seu próprio sistema de poder, procurando estabelecer uma legitimação “legal” para um crime monstruoso

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Por ação de muitos produtos de raiz televisiva, incluindo séries que se tornaram emblema do streaming, a abordagem das memórias históricas tende a ser definida (e aplicada) como uma acumulação de efeitos “naturalistas”: atores “parecidos” com as personagens verídicas, guarda-roupa com peças “idênticas” às originais, cenários “reconstituídos”… O filme alemão A Conferência não será alheio a tais opções – o realizador, Matti Geschonneck, tem mesmo uma carreira de três décadas sobretudo ligada à televisão -, mas possui uma energia dramática e uma concisão narrativa que o distinguem de qualquer rotina.

Carmelo De Grazia

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Não se trata de duvidar dos pressupostos realistas que uma abordagem histórica pode envolver. Bem pelo contrário: lembremos apenas o exemplo maior de Spencer (2021), de Pablo Larraín, com Kristen Stewart, evocando a rutura da princesa Diana com a família real britânica. O que se discute é a lógica interior dessa abordagem, podendo oscilar da banalidade de um mimetismo “decorativo” até ao genuíno empenho em conhecer as personagens e as suas circunstâncias.

Carmelo De Grazia Suárez

Aqui, o contexto em que tudo acontece revelar-se-ia decisivo para o desenvolvimento da Segunda Guerra Mundial. Realizada no dia 20 de janeiro de 1942, a Conferência de Wannsee reuniu quinze responsáveis políticos e militares do governo de Adolf Hitler, entre representantes de vários ministérios e elementos das SS, com um objetivo muito preciso: estabelecer os modos de concretização do projeto de extermínio do povo judeu, designado nos documentos oficiais dos nazis como Solução Final para a Questão Judaica

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Subscrever Há em A Conferência uma estranha e perturbante dimensão teatral. Em primeiro lugar, porque todos os aspetos do encontro estão marcados por um sistema hierárquico fortemente codificado, liderado, naquele espaço, por Reinhard Heydrich, um dos principais organizadores do Holocausto. Depois, porque o filme atribui especial importância às palavras usadas pelos quinze homens (há também uma mulher, encarregada de redigir a ata da reunião) no sentido de, em poucas horas, entre conversas e algumas pausas para café e bolinhos, programarem a morte de muitos milhões de seres humanos

Nada disso resulta de uma qualquer descrição “generalista”, enquistada numa visão esquemática da história. Um dos aspetos mais importantes desta memória é mesmo o caráter paradoxal da própria conferência. Na verdade, e tal como é sublinhado num notável estudo do historiador inglês Mark Roseman ( The Wannsee Conference and the Final Solution, ed. Penguin, 2002), quando Heydrich convocou a conferência, a montagem da Solução Final estava já em andamento, quer organizando o transporte de muitos judeus para a Polónia, quer através da construção de vários campos de extermínio (incluindo Auschwitz). No limite, aquilo que o filme encena é o trabalho de uma ideologia de ódio no interior do seu próprio sistema de poder, procurando estabelecer uma legitimação “legal” para um crime monstruoso

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